Resenha: Só os animais salvam



Só os animais salvam é um livro que me conquistou desde a pré-venda. Quem me conhece sabe que sou a louca dos animais e, com uma temática tão linda, não poderia resistir a mais esse lançamento da Darkside que foge aos clichês e presenteia o leitor com uma delicadeza sem precedentes.
Com histórias narradas pelas almas de dez animais, Ceridwen Dovey nos apresenta um universo novo, maduro e extremamente reflexivo, capaz de tocar até os corações mais céticos. 
Quer saber o que achei do livro? Então confira a resenha de Só os animais salvam:

“Nós, humanos, nos achamos o máximo. Mas o que temos feito com o nosso mundo? "Só os Animais Salvam" é um livro que tenta responder a essa pergunta de maneira inusitada. Cada um de seus contos é uma fábula moderna, narrada por um bicho diferente, vítima de uma de nossas incontáveis guerras. Em meio ao caos, os animais conseguem encontrar esperança e inspiração numa das atividades mais significativas que nossa espécie já criou: a literatura. Ceridwen Dovey reúne fragmentos e personagens da obra de escritores imortais e nos faz sonhar o sonho dos inocentes. Só os animais salvam."












FICHA TÉCNICA 
Título: Só os animais salvam
Autora: Ceridwen Dovey
Ano: 2017
Páginas: 235
Idioma: Português
Editora: Darkside Books
Nota: 5/5
Compre: Amazon / Saraiva
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Só os animais salvam me surpreendeu desde o começo. Acreditava que todo o enredo seria envolto de diálogos fofos, pensamentos sobre a amizade entre seres humanos e bichos ou até mesmo um jeito poético de homenagear os animais. Mas não é bem assim. O livro é narrado por dez almas de animais que, logo de cara, já estão mortos e fazem reflexões sobre suas vidas. Todos morreram por causa da interferência humana, mesmo que não tenha sido proposital. Alguns dos animais sabem disso, já outros escapam dessa percepção e sua morte é apenas o último parágrafo de suas histórias.
Desde o primeiro conto entendi que as histórias não seriam meigas e não seriam voltadas para um publico infantil. "O gato e eu", narrado pela alma de uma gata, conta a história de Kiki, uma gata doméstica que se vê morando nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial enquanto tenta voltar para casa, para sua dona. "A mocinha de Peter Vermelho" mostra a (ir)realidade de chipanzés educados para serem mais semelhantes aos humanos em pensamento, comportamento e estilo de vida. Esses exemplos mostram como o livro é, em si, uma crítica aos seres humanos sem se apegar a clichês e frases prontas. 


“A alma do porco deu um suspiro, caminhando para longe. Seus contornos se atenuavam sob a luz do sol que passava entre as copas das árvores. Ele não se despediu, mas parece que os mortos não têm pudores em ir embora sem cerimônias." P. 88

É essa forma de contar histórias tão diferentes e fazer críticas sem abusar de textos maçantes ou melodramáticos que faz com que Só os animais salvam seja um livro tão incrível. Enquanto alguns dos contos se mantêm fiéis à realidade, outros mergulham no irreal, mas sem fazer com que a leitura seja prejudicada de qualquer forma por conta disso. Pelo contrário, a autora brinca com o que de fato poderia ser real e ter acontecido de verdade com a nossa certeza de que aquilo não passa de uma fantasia. É o questionamento constante e inconsciente por parte do próprio leitor que torna o livro tão reflexivo e carregado de críticas.






O primeiro conto tem o ritmo um pouco mais lento que o resto e, a princípio, pensei que me decepcionaria com o livro. Entretanto, a partir da segundo história a escrita corre de forma mais fluida e cada conto traz uma forma diferente de narrar as vidas animalescas dos personagens. Esse é um dos trunfos da autora. Ceridwen Dovey consegue variar a escrita de acordo com a personalidade de cada narrador o que me fez pensar, em vários momentos, que estava lendo uma coletânea de contos de autores diferentes.
Como de praxe, preciso elogiar a diagramação da Darkside e o cuidado com a estética do livro. A capa que já me fez querer adquirir o livro antes mesmo de conhecer seu conteúdo é a cereja do bolo. As ilustrações que apresentam cada capítulo são simples, mas dão um ar mágico aos contos, as frases de autores famosos quebram um pouco a narrativa e trazem mais reflexões a respeito do nosso relacionamento com os animais e o miolo do livro como um todo é muito lindo e gostoso de folhear. Não encontrei erros de tradução ou revisão, mais um dos muitos cuidados da Darkside com seus títulos.





“'Mas há milhões e milhões de mexilhões no mundo, eu sou um só', respondi.
'É, mas você é um mundo por si mesmo, assim como eu', ele disse. 'Somos todos pequenos mundos'". P. 106

Só os animais salvam é um daqueles livros que se ama ou se odeia. O ritmo das histórias pode incomodar alguns leitores, mas as reflexões propostas o tornam um tesouro em meio a tantos títulos no mercado editorial. É uma daquelas coletâneas de histórias universais e atemporais. Não é voltado para um nicho e deveria ser leitura obrigatória para todos aqueles que gostam de pensar fora da caixinha e abrir o coração para novas ideias e novos universos literários.

Se você gostou da resenha e quer conhecer outro livro da Darkside, confira a resenha de The Beauty of Darkness!

“Os fios da aranha se adensaram. Pensei no lendário voo solo de Charles Lindbergh sobre o Atlântico, em 1927, no fato de que ele tivera uma companhia na cabine, na forma de uma mosquinha. Ele diria, mais tarde, que a consciência de haver algo vivo naquela cabinezinha fria, durante todas as horas de voo solitário sobre a escuridão do oceano, o consolava.
Seguimos ao redor da Lua, a ranha e eu." P.144


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Um pouquinho da Bienal do Livro - Rio 2017


Esse ano realizei uma vontade enorme que era participar da Bienal do Livro no Rio de Janeiro. Já fui em duas aqui em Minas Gerais, mas a Bienal do Rio é outro nível, né? Chegando no lugar e vendo a quantidade de pessoas eu já sabia que encontraria uma infinidade de editoras, livros, leitores e uma estrutura maior do que eu estava acostumada. Não deu outra.
Com vários pavilhões e todas as minhas editoras favoritas (com exceção da Darkside que não vi por lá), foi difícil não surtar em meio a tantas opções e informações. Os estandes das editoras estavam enormes, principalmente das grandes como Intrínseca, Companhia das Letras, Grupo Editorial Record etc. Para minha surpresa não eram apenas os lançamentos que ganharam destaque. Em estandes como o do grupo Companhia das Letras encontrei um livro do Gay Talese antigo que não está nas listas dos mais vendidos. Ou seja, tinha livro para todos os gostos e era bem fácil encontrar aquele título que estava procurando há um bom tempo.
Depois de meses juntando dinheiro pensando em gastar bastante na Bienal, comprei 9 livros que já estava de olho há algum tempo, entre eles lançamentos e títulos que já estavam na minha lista do Skoob. Como algumas editoras fizeram promoções bem razoáveis, consegui levar mais do que estava planejando comprar pra felicidade de uma leitora assídua!
Também aproveitei a oportunidade para distribuir os primeiros marcadores do Nostalgia Cinza. Depois da vergonha inicial, consegui distribuir praticamente todos nos estandes e com alguns vendedores <3
Decidi compartilhar algumas fotos para ilustrar melhor um pouquinho do que foi a Bienal do Livro do Rio esse ano e os livros que comprei. Como estava realmente muito cheia não consegui tirar tantas fotos, mas espero gostem! Posso garantir que tem muita resenha vindo aí ;)

Parte do estante da editora Intrínseca com o livro Pax (confira a resenha).

Parte do movimento no Pavilhão Azul.

Lateral do estande do grupo Companhia das Letras.

Entrada do estante da Intrínseca com todos os livros publicados pela editora.

Marcadores personalizados do Nostalgia Cinza <3

Todos os livros comprados na Bienal do Livro do Rio 2017.

E aí? O que achou das fotos da Bienal do Livro do Rio e do pouquinho que compartilhei? Você já foi ou tem vontade de ir? Gostou dos marcadores do Nostalgia Cinza? Me conta isso tudo nos comentários, vamos conversar um pouquinho <3

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Resenha: Olhos de carvão



Quando Olhos de carvão chegou, em parceria com o Grupo Editorial Record, gostei de saber que o autor é nacional e meu conterrâneo. Os contos se passam, em sua maioria, em Minas Gerais e foi divertido ver alguns lugares tão familiares enfeitando suas páginas. 
Adoro me aventurar pela escrita de autores nacionais, gosto de conhecer nomes que estão escrevendo suas histórias na nossa literatura e sempre acho válido compartilhar seus títulos por aqui. Afonso Borges é um escritor que sabe brincar com as palavras e criar histórias perfeitamente críveis.  
Quer saber o que achei do livro? Então confira a resenha de Olhos de carvão:

“O que se percebe em Afonso Borges é, primeiro, uma amplíssima bagagem literária; um convívio longo, íntimo e intenso com a arte narrativa.” Alberto Mussa
Ao resvalar do plano real para o simbólico, a linguagem sempre poética de Afonso Borges dá aura singular aos contos aqui reunidos, que muitas vezes não passam de um flagrante, mais próximos da crônica do que do conto tradicional. A mescla de linhas narrativas e a alternância de tempo ou espaço revelam também o domínio de técnica muito difícil de executar em dimensão tão curta. Olhos de carvão marca a estreia de Afonso Borges – criador do projeto Sempre Um Papo e da Fliaraxá, e autor de outros cinco livros – como contista."











FICHA TÉCNICA 
Título: Olhos de carvão
Autor: Afonso Borges
Ano: 2017
Páginas: 112
Idioma: Português
Editora: Grupo Editorial Record (Galera Record)
Nota: 3/5
Compre: Amazon / Saraiva
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LIVRO CEDIDO PELA EDITORA


Olhos de carvão é um livro bem pequeno, tem pouco mais de 110 páginas e é uma coletânea de curtos contos. Isso me chamou a atenção porque adoro livros de contos e raramente encontro histórias curtas como  as desse livro. Eles não passam de duas páginas e, várias vezes, senti como se estivesse lendo uma coletânea de crônicas; tranquilas, rápidas e cotidianas.
Por ser um livro pequeno e recheado de contos breves, a leitura flui rapidamente. Além disso cada conto - capítulo - é separado por uma página em branco, o que faz o livro parecer ainda maior do que realmente é. É um livro objetivo e direto, uma leitura que pode ser feita de uma vez, em uma hora. 

“Fim de tarde, noite chegando, juntou três jagunços, selaram cavalos e foram passear. Escureceu de repente. No final de uma curva, mata fechada, um brilho mínimo. Seu João parou, deu uma empinada no cavalo, voltou, pegou o menino pela cacunda e o jogou violentamente uns dois metros para o lado, no meio do mato. Fica quieto aí. Foi a conta de falar e o tiroteio começou. Emboscada. No escuro, tiro parece fogo de  artifício. O revólver brilha. Durou uma eternidade."


Cada conto, por mais curto que seja, tem sua profundidade e cada leitor interpretará sua mensagem de uma forma diferente, certeza. Afonso Borges cria histórias que brincam com a linha tênue entre realidade e fantasia e conduz o leitor através de suas palavras bem pensadas e escritas. É inegável dizer que Afonso sabe o que faz, que o autor tem sua própria voz muito bem delimitada. A padronização dos títulos que sempre abordam três elementos da narrativa é apenas um exemplo do cuidado com a estética do livro e da uniformização dos contos. Até a forma com que cada conto se encerra é pensada com cuidado. A maneira de conduzir o texto é bem diferente da maioria dos contos porque o autor opta por quebrar a narrativa muitas vezes no clímax da história. 




Os problemas que encontrei ai longo da narrativa são extremamente pessoais porque Afonso Borges não peca na escrita em nenhum momento. Os dois primeiros contos me chamaram muito a atenção, mas depois de algumas páginas senti que a leitura se tornou monótona e fui perdendo o interesse aos poucos. O mesmo ponto positivo a respeito da quebra da narrativa logo no clímax de cada conto também foi responsável por me frustrar. A cada vez que eu mergulhava na história ela se encerrava abruptamente. 

Olhos de carvão não é um livro para todos os públicos e faixas etárias, é um livro para um leitor mais experiente, que está acostumado a degustar o livro, que sente prazer em refletir sobre cada parágrafo. Não é para aqueles que querem uma leitura fácil ou uma leitura sem muito conteúdo. É um livro que pode ser tanto uma desilusão quanto uma preciosidade dependendo de quem o lê. 
Se você gostou da resenha e quer conhecer outro livro de contos, confira a resenha de As coisas que perdemos no fogo!

“Coca-Cola, pediu novamente. Seu João Meriti ordenou: manda buscar uma caixa lá em Valadares. Dia seguinte estava lá, uma caixa, aquela Coca de vidro, média. Poderia tomar uma por dia, só. Seu João Meriti,  o Prefeito, queria tratar bem aquele menino de cidade, ali, na pequena Marilac. Sabe atirar? Vem cá aprender."



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